VARIANTES NACIONAIS DO PORTUGUÊS: SOBRE A QUESTÃO DA DEFINIÇÃO DO PORTUGUÊS DO BRASIL[1]

Tânia C. F. Lobo

 

            Em virtude da sua condição de língua transplantada, o português do Brasil, face ao português europeu, tem sido objeto de interpretações controversas, que vão desde a afirmação da sua autonomia enquanto sistema lingüístico à defesa da tese contrária, que propugna o seu caráter conservador e unitário.

Esse longo debate, que se inicia na segunda metade do século XIX e ainda hoje perdura, encontra as suas principais motivações em dois fatos da história cultural e política do Brasil: a sua Independência e o movimento romântico na sua literatura. A afirmação de Antônio Cândido de que o “Romantismo no Brasil foi episódio do grande processo de tomada de consciência nacional, constituindo um aspecto do movimento de independência” (1981:303) é ilustrativa do tipo de apropriação que aqui se fez do ideário romântico ocidental. Essa apropriação particular, quanto às suas conseqüências ao nível da reflexão lingüística, será, a seguir, rapidamente evocada.

Se, como se sabe, o nacionalismo foi uma das grandes vertentes do movimento romântico, no Brasil essa característica assumiu novas e significativas dimensões, na medida em que a Independência era fato recente; ainda no dizer de Antônio Cândido, “afirmar a autonomia no setor literário significava cortar mais um liame com a mãe Pátria” (1981:303). O Romantismo terá sido, pois, o primeiro momento de ruptura com a tradição literária portuguesa, não apenas ao nível da eleição de uma temática nacional, mas também ao nível da intenção de que essa temática se expressasse através de uma língua literária diferenciada a que também se pudesse chamar de nacional.

Um dos pilares da tradição gramatical ocidental, e ainda hoje vigente, é a adoção da língua literária como a referência para a construção abstrata que se denomina idioma nacional e que, sob muitos aspectos, se identifica ao conceito hoje amplamente difundido de língua padrão. Dentro do contexto sócio-político que refiro, não será de surpreender que a aspiração à construção de uma língua literária nacional facilmente tivesse evoluído para que se pretendesse a existência de um idioma nacional, que, num movimento dialético, deveria fundamentar a existência da língua literária nacional.

A atitude da geração romântica de tentativa de constituição de uma língua literária brasileira, atitude esta mais sensível “a partir de 1860, [quando] a produção novelística se intensifica e amplia no Brasil, graças, principalmente, ao trabalho e exemplo de José de Alencar” (Cândido, 1981:211), contrapôs-se logo a reação dos chamados puristas, alguns dos quais portugueses, que proliferaram no Brasil, na segunda metade do século XIX e primeira metade dos século XX[2]. Ainda que aparentemente movida apenas pelo sentimento geral de lusofobia característico da época, o fato é que a geração romântica, fundamentada nas concepções evolucionistas da lingüística da época, segundo as quais as línguas se comportavam como seres vivos e, portanto, nasciam, cresciam, envelheciam e morriam, aspirou a uma língua própria, a chamada língua brasileira, instalando uma polêmica que será retomada de forma mais radical pela primeira geração modernista, a da Semana de Arte Moderna, de 1922.

O período que separa o Romantismo do Modernismo caracterizou-se, em termos lingüísticos, por uma atitude conservadora e até mesmo purista por parte dos seus escritores e intelectuais mais representativos; contra tal atitude os primeiros modernistas reagirão violentamente. Enquanto os românticos – apesar de acreditarem que o nascimento da chamada língua brasileira era fato contra o qual não se poderia insurgir[3] – não reivindicavam mais que o direito a uma certa originalidade (Teyssier, 1987:89), os escritores modernistas serão os que de fato buscarão na realidade lingüística brasileira as formas que constituirão a sua expressão. No texto programático da poesia modernista, o Manisfesto da Poesia Pau Brasil, publicado em 1924, Oswald de Andrade, um dos ideólogos do movimento, sintetiza a postura do grupo em face das questões lingüísticas: “A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos[4].”

Em consonância com a atitude de reação aos modelos lingüísticos tradicionais, a primeira geração modernista, sobretudo através da figura de Mário de Andrade, outro dos seus grandes representantes, retomará a defesa da existência de uma língua brasileira[5], o que será posteriormente abandonado não apenas pelos escritores da geração seguinte, a chamada geração de 45, como também pelo próprio Mário de Andrade:

É coisa incontestável que a literatura brasileira atual se afasta violentamente do dizer português. Não vou já discutir o problema da ‘língua brasileira’, que, a meu ver, não existe, embora seja da maior verdade falarmos, de preferência, em ‘língua nacional’.[6]

 

Sobre a utilização do termo substitutivo nacional, nota Celso Cunha (1968:88) ser um “adjetivo aparentemente neutro, pois que deixa a língua inominada, [tendo] no entanto o condão de acalmar os zelos nacionalistas em países onde a contemplação patrioticamente interessada do idioma é mais sensível.” O forte sentimento nacionalista que marcou o primeiro século de existência do Brasil independente teve conseqüências nas mais diversas áreas. E, quando a reflexão sobre a língua portuguesa no Brasil, inaugurada no âmbito literário, migra para uma esfera mais propriamente lingüística, é de se notar que, não por acaso, três dos expoentes daquela que é considerada a geração dos pioneiros[7], João Ribeiro (1860-1943), Sousa da Silveira (1883-1967) e Antenor Nascentes (1886-1972), são, respectivamente, autores de livros com títulos bastante sugestivos: Língua nacional, A língua nacional e o seu estudo e Idioma nacional.

Ainda que, para os autores acima referidos, sob o rótulo nacional subsistisse o entendimento de que a língua do Brasil era a portuguesa, considero que a chamada questão da língua brasileira só deixa de fazer eco quando, em 1950, Serafim da Silva Neto publica a sua Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil e redimensiona o problema, colocando-o nos seguintes termos: a língua que se fala no Brasil é a portuguesa e as suas principais características são a unidade e o conservadorismo. Antes disso, porém, vale referir que, ainda em 1936, Renato Mendonça, com um livro intitulado O português no Brasil, buscava, através de argumentos fundados na geografia lingüística, demonstrar a validade da tese da língua brasileira. Logo a seguir, em 1940, Sílvio Elia, com O problema da língua brasileira, título que parece ter sido inspirado no capítulo do mesmo nome da obra de Mendonça, fazia a defesa da tese contrária. Nesse livro, Sílvio Elia, a partir de uma compreensão que considera filosófica da natureza do fato lingüístico (porque não está voltada para o fenômeno estritamente lingüístico, mas para o que seria a sua essência), afirma rejeitar a tese da língua brasileira por conceber que o que a sustenta é uma concepção evolucionista, segundo a qual, sendo as línguas produtos naturais, evoluiriam por si mesmas. Defende, então, a idéia de que as línguas são produtos culturais e conclui pela unidade lingüística entre Brasil e Portugal, pois tal só não se justificaria, caso se pudesse postular uma diversidade cultural que impedisse o Brasil de se integrar na tradição da civilização do Ocidente. Não se pode deixar de observar, apesar de a justificativa apresentada pelo autor para a unidade lingüística entre Brasil e Portugal ser um tanto falaciosa, que a concepção de língua como um produto cultural representa um avanço em relação às idéias que nortearam o pensamento dos neo-gramáticos, que, estendendo para o domínio lingüístico métodos e procedimentos próprios das ciências naturais, afirmavam a inexorabilidade das leis fonéticas.

A fase marcada pelo antagonismo entre as correntes tradicionalista e nacionalista, em que, mais sensivelmente, “os problemas da língua derivaram para o conflito de paixões”[8], parece encerrar-se – não nos esqueçamos de quão arbitrárias são as periodizações – em 1950. Como disse anteriormente, a tese que marca a Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil, de Serafim da Silva Neto, é a que sustenta ser o português do Brasil caracterizado pela unidade e pelo conservadorismo. Embora desde 1950 toda uma discussão se tenha travado acerca de quão unitária ou conservadora seja a língua falada no Brasil, solidificou-se, contudo, a posição, ainda hoje hegemônica, da sua definição como portuguesa.

Da leitura do texto de 1950, devem-se destacar alguns aspectos a fim de se analisar a pertinência da tese defendida. O primeiro, e mais geral, diz respeito ao estágio de desenvolvimento da lingüística no Brasil em meados deste século; o segundo, aos elementos mobilizados pelo autor para a construção da sua análise e, finalmente, já no plano da subjetividade, a própria visão de mundo do autor.

Em relação ao primeiro item, o panorama geral da área era carcterizado pelos estudos filológicos, na linha da tradicional filologia portuguesa da escola de Leite de Vasconcellos, à qual Serafim da Silva Neto também se filiava. Sobre a dialectologia, o próprio autor (1986:13), citando Vergílio de Lemos, admitia que “ainda não se [constituía] entre nós numa disciplina autônoma, com objeto, programa e métodos próprios.” Não se havia superado, portanto, a fase das observações um tanto impressionísticas. O primeiro trabalho que emprega de forma sistemática uma metodologia científica no âmbito da dialectologia brasileira – o Atlas prévio dos falares baianos – só aparecerá em 1963 e não é exagerado afirmar que ainda hoje não se tem um diagnóstico preciso de qual seja a conformação dialetológica de todo o território brasileiro. Finalmente, quanto ao estruturalismo, este ainda não se tinha difundido no Brasil, o que só ocorrerá a partir da década de 60, com a introdução nos currículos dos cursos de Letras da disciplina de Lingüística, que assumirá, pelo menos em sua primeira fase, uma orientação fundamentalmente estruturalista (cf. Faraco, 1991:05).

Sobre o segundo aspecto, as seguintes palavras de Serafim da Silva Neto caracterizam o domínio dentro do qual se moveu:

 

Foi nosso escopo encontrar apoio na história do Brasil, na formação e crescimento da sociedade brasileira, para colocar a língua no seu verdadeiro lugar: expressão da sociedade, inseparável da história da civilização. (1986:13)

 

Como afirma o próprio Silva Neto, o seu estudo se situa fundamentalmente no âmbito “da história externa da língua portuguesa no Brasil” (1986:14). Desse modo, as incursões que faz no campo propriamente lingüístico, o da história interna da língua, além de quase apenas se manterem dentro das fronteiras da “pronúncia”, não chegam a constituir parte relevante no todo da obra. O autor, além de não fundamentar as suas conclusões em uma base de verificação empírica sistemática, como filólogo que era, também não mobiliza em sua análise os elementos de uma teoria geral do sistema lingüístico, que naquela época já havia sido desenvolvida, embora ainda com pouquíssima difusão no Brasil.

O terceiro, último e, talvez, mais importante aspecto é o que se relaciona aos condicionamentos sócio-culturais e ideológicos que enformam a visão de mundo do autor e se refletem na sua apreciação dos fatos. Assim, é fundamental ressaltar que está na base do pensamento de Serafim da Silva Neto a convicção da superioridade étnica e cultural dos colonizadores brancos portugueses em relação aos índios e negros. Decorrência imediata da convicção de existência de hierarquia de culturas é que a língua portuguesa, língua literária e de cultura, fosse considerada, embora o autor não o diga de forma explícita, intrinsecamente superior às línguas exóticas com as quais entrara em contato.

A defesa da tese da unidade e do conservadorismo do português brasileiro, ou até mesmo da tese contrária, só se poderia legitimar se precipuamente baseada em uma sistemática verificação empírica dos dados lingüísticos, o que, não tendo ocorrido, lhe confere um caráter impressionístico.

Ao fazer tal afirmação, não pretendo, contudo, vincular-me aos que defendem que a lingüística histórica deva ocupar-se exclusivamente da história interna das línguas. Ao contrário, julgo indispensável que metodologicamente se estabeleça uma aliança entre a história interna e a história externa. Nesse caso específico, todavia, cumpre ressaltar que o autor extrapola os limites do que se propôs, fazer história externa, quando, quase sem lançar mão de elementos da história interna da língua, adianta conclusões que se mostram mais pertinentes a esse domínio.

Nesse sentido, pode-se dizer que tal tese se apresenta como uma tese de natureza ideológica, coadunando-se perfeitamente com a intenção apriorística do autor de provar que a língua que se estabeleceu no Brasil foi a língua de uma cultura superior e, principalmente, que essa língua esteve sempre imune àquelas com que entrou em contato, mantendo-se assim conservadora e unitária. É, portanto, seu intuito negar, para além das fronteiras do léxico, qualquer influência do grande contingente de aloglotas na formação da língua que se fala no Brasil. No seu afã de o fazer, todavia, o autor chega a incorrer em flagrantes contradições, como mostra a passagem a seguir:

 

no português brasileiro não há, positivamente, influência de línguas africanas ou ameríndias. O que há é cicatrizes da tosca aprendizagem que da língua portuguesa, por causa de sua mísera condição social, fizeram os negros e os índios. (1986:96)[9]

           

            Cerca de uma década depois de publicada a Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil, inicia-se uma fase em que, dada a hegemonia dos estruturalismos – primeiro o saussuriano e mais recentemente o gerativista –, o pensamento lingüístico no Brasil estará quase que exclusivamente voltado para as abordagens sincrônicas, privilegiadoras da língua contemporânea. O tipo de reflexão que se insere na linha cujo percurso tenho procurado traçar, fica, nessa fase, restrito, por assim dizer, a algumas atitudes solitárias, dentre as quais a de Celso Cunha se destaca.

Pertencente à mesma geração de Serafim da Silva Neto, mas atribuindo-lhe o estatuto de mestre, Celso Cunha, fundamentalmente preocupado com a língua enquanto fenômeno histórico, debruça-se sobre a tese da unidade e do conservadorismo do português brasileiro. Embora, ao longo da sua obra, essa problemática seja constantemente referida, em artigo de 1986, intitulado Conservação e inovação no português do Brasil, analisa especificamente a tese de 1950, sobretudo a parte relativa ao suposto caráter conservador do português do Brasil. As suas conclusões, no entanto, divergem das de Serafim da Silva Neto. Sobre o problema da unidade, afirma taxativamente:

 

o mito da unidade da língua popular está sendo progressivamente desmentido pelos atlas lingüísticos que se vão publicando. Ao contrário, o que eles começam a ensinar-nos é que a característica fundamental dos falares brasileiros reside no seu caráter vacilante, no seu acentuado polimorfismo. (1986:200)

 

Ou seja, o que o desenvolvimento dos estudos dialetológicos no Brasil veio provar foi justamente o contrário daquilo que Serafim da Silva Neto, até mais ideológica que impressionisticamente, afirmara.

Para tratar da questão do conservadorismo, Celso Cunha analisa os fatos fonéticos mais difundidos no português do Brasil (embora não possam ser considerados gerais), dividindo-os em dois grupos: o dos que “representam a conservação de pronúncias atualmente de nula ou de escassa vitalidade na Península” e o dos que “à falta de sua documentação nos falares portugueses de qualquer época, devem ser considerados inovações americanas” (1986:204). A conclusão a que chega sobre esse item é a seguinte: afirma que decidir entre o caráter conservador ou inovador da realidade lingüística brasileira é, considerando o estado de desenvolvimento dos nossos conhecimentos, prematuro. Todavia, apesar da fragmentariedade dos dados disponíveis, a “impressão” que se tem é contrária à da “estaticidade” (idem, ibidem: 1986:214).

A posição de Celso Cunha diante do problema é, antes de tudo, uma posição cautelosa. Entretanto, uma questão parece saltar aos olhos: como sustentar que uma realidade lingüística, como a brasileira, marcada pela diversidade, não apenas no plano diatópico, mas também, e talvez mais radicalmente, no diastrático, conforme a sociolingüística tem podido provar, seja, ao mesmo tempo, conservadora?

Penso não se poder alegar em defesa de tal idéia (e Celso Cunha não o faz) o fato de o Brasil ter sido “no decurso de mais de três séculos um vasto país rural” (Cunha, 1985:17), e dessa condição resultar ser um país lingüisticamente conservador. Ou seja, apesar de, em termos lingüísticos, ser o campo um domínio geralmente mais conservador que o urbano, as condições sociais, históricas e geográficas particulares do Brasil devem ser consideradas, em toda a sua complexidade, na análise do problema. Assim, se se levar em conta, por um lado, a extensão territorial do país, o seu número de habitantes (no século XIX, esse número já ultrapassava em mais que o dobro o de Portugal), o contato lingüístico que se observou durante todo o período colonial (e não só) e, por outro lado, o fato de que a própria vida das cidades tinha um caráter também bastante particular, já que não havia imprensa e escolas superiores até 1808, é muito pouco provável que seja esse quadro favorável ao conservadorismo lingüístico.

Mas não pensemos, por outro lado, que o mito da unidade da língua deixou de existir. Nesse sentido, não se pode deixar de referir a posição de Sílvio Elia, que, em 1979, em um livro intitulado A unidade lingüística do Brasil: condicionamentos geoeconômicos ainda se regozijava diante da constatação da “realidade esplêndida de uma unidade lingüística, quer ao nível culto quer ao popular” (1979:09). A posição de Sílvio Elia, assim como a de Paulo A. Froehlich, que sustenta uma opinião exatamente contrária[10], são os dois pólos de que parte Nélson Rossi para analisar a questão em A realidade lingüística brasileira: o mito da unidade e sua manipulação. Advertindo sobre a “temeridade” de aceitar falar sobre o tema, na sua opinião, um “objeto mal, assistemática e fragmentariamente conhecido” (1980:35), Rossi não compartilha em absoluto – como o título do seu artigo já anuncia – da posição de Sílvio Elia. E não o faz, justificando que, tanto no plano teórico ou lingüístico-formal stricto sensu, como no plano histórico-social, “dadas as características indiscutivelmente pluriculturais tanto do nosso passado quanto do nosso presente” (1980:40), a unidade pressupõe a diversidade.

Se, por cerca de aproximadamente duas décadas, a lingüística histórica deixou de figurar entre as principais preocupações dos lingüistas brasileiros, essa situação parece estar sendo alterada. Destacam-se atualmente os nomes de Rosa Virgínia Mattos e Silva, Fernando Tarallo, Carlos Alberto Faraco e Marco Antônio de Oliveira, dentre aqueles que têm como o centro das suas atenções a história da língua portuguesa. Segundo Faraco (1991:75), as “três vias para o estudo histórico das línguas: voltar ao passado e nele se concentrar, voltar ao passado para iluminar o presente, estudar o presente para iluminar o passado” estariam hoje representadas no Brasil, situando-se o trabalho de Rosa Virgínia Mattos e Silva na primeira perspectiva, o do próprio Faraco na segunda e, finalmente, na terceira, o de Fernando Tarallo e o de Marco Antônio de Oliveira.

Dos trabalhos dos lingüistas brasileiros contemporâneos que contextualizam a língua na sua história, destaca-se particularmente a posição de Fernando Tarallo, por ter recentemente retomado a tese oitocentista da existência de uma língua brasileira distinta da portuguesa:

 

the portuguese language variety used in Brazil has developed quite a reasonable number of syntactic features different from the European system. These differences are large enough to allow for a description of the Brazilian variety in the sense of a Brazilian grammar. (1992:02)

 

Seguindo uma vertente ainda pouco explorada em investigações de natureza diacrônica, que tradicionalmente têm privilegiado o estudo da mudança nos níveis fonológico, lexical e morfológico, o seu trabalho situa-se no âmbito da sintaxe e tem procurado aproximar modelos teóricos, pelo menos aparentemente, inconciliáveis: a sociolingüística e a gramática gerativa.

Evidentemente fora da esfera do domínio da influência do exacerbado sentimento nacionalista que esteve na base da defesa da tese da língua brasileira quando originalmente formulada, para Tarallo, contudo, no século XIX, já se podia atestar a existência de uma gramática brasileira distinta da portuguesa:

 

a new grammatical system call it a Brazilian grammar or a dialect of Portuguese with its own grammatical configuration since this is strictly speaking an ideological issue, emerged in late 19th century, establishing a new pattern rather different from and opposed to European Portuguese. (1992:02)

 

Um outro aspecto do tabalho de Fernando Tarallo que não se pode deixar de mencionar são as suas investigações na área da chamada Crioulística. Sem propriamente confirmar ou negar a hipótese de que o português americano seja resultado de uma língua pidgin falada pelos escravos africanos trazidos para o Brasil[11], retoma, de certa forma, um tipo de abordagem, que, por razões de natureza ideológica ou mesmo teórica, foi durante largo tempo desprezado no Brasil:

 

Too much effort has already been put into understanding the tipology of creole languages. No existing criteria, however, can alone solve the puzzle here, since so much about the external as well as the internal history of BP [Brazilian Portuguese] remains unknown.

 

E ainda:

 

“I intend to describe it [BP] as a mixed type of language: one which, absurdly, unexpectedly and strangely enough, shares properties with unrelated languages, whether creole or not, and is eventually changing away from its original superstrate: EP [European Portuguese].” (1988:139)

 

Da fase em que, devido à “falta de visão pancrônica da maioria dos estruturalistas” (Cunha, 1968:48-49), a lingüística histórica esteve exilada do conjunto das atenções dos lingüistas brasileiros, estamos passando a uma outra em que se recupera o interesse por esse tipo de investigação. A reentrada em cena da lingüística histórica vem, por outro lado, como que fechando um círculo, trazer de volta um tipo de preocupação que parece estar ligado à própria história das línguas transplantadas (como se também não dissesse respeito às línguas que se mantêm em seu local de origem), ou seja, a preocupação atinente à sua mudança, ou não, para outros sistemas lingüísticos. Trata-se, sem dúvida, de uma das questões mais candentes da lingüística, para a qual já se tentaram respostas várias, não existindo, porém, uma que se possa considerar definitiva.

 

 

 

REFERÊNCIAS

BARBADINHO NETO, Raimundo. (1977). Sobre a norma literária do Modernismo. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico.

 

CÂNDIDO, Antônio. (1981). Formação da literatura brasileira. 6 ed. Belo Horizonte: Itatiaia.

 

CUNHA, Celso. (1968). Língua portuguesa e realidade brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

 

CUNHA, Celso. (1985). A questão da norma culta brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

 

CUNHA, Celso. (1986). Conservação e inovação no português do Brasil, O eixo e a roda, Belo Horizonte.

 

ELIA, Sílvio. (1961 [1940]). O problema da língua brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro.

 

ELIA, Sílvio. (1979). A unidade lingüística no Brasil: condicionamentos geoeconômicos. Rio de Janeiro: Livraria Editora.

 

FARACO, Carlos Alberto. (1991) Lingüística histórica. São Paulo: Ática.

 

FROEHLICH, Paulo A. (1975). Brasil: língua padrão ou diglossia?, Revista de Letras, São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, v. 17, p. 165-177.

 

ROSSI, Nélson. (1963). Atlas prévio dos falares baianos. Rio de Janeiro: INL – MEC.

 

ROSSI, Nélson. (1980). A realidade lingüística brasileira, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, USP, no. 22.

 

SILVA NETO, Serafim da. (1986 [1950]). Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. 5 ed. Rio de Janeiro: Presença – INL.

 

TARALLO, Fernando. (1988). Discussing the alleged creole origin of Brazilian Portuguese: targeted vs. untargeted syntactic changes, Cadernos de estudos lingüísticos, Campinas, no. 15, p. 137-161.

 

TARALLO, Fernando. (1992). Turning different at the turn of the century: 19th century Brazilian Portuguese. In: GUY, G; BAUGH, J.; SCHIFFRIN, D. (Eds.), Festschrift to William Labov. No prelo.

 

TELES, Gilberto Mendonça. (1977). Vanguarda européia e modernismo brasileiro. 4 ed. Petrópolis: Vozes.

 

TEYSSIER, Paul. (1987). História da língua portuguesa. 3 ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.

 



[1]Este artigo faz parte da Dissertação de Mestrado A colocação dos clíticos em português: duas sincronias em confronto, desenvolvida sob a orientação da Profa. Dra. Rosa Virgínia Mattos e Silva e apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1992.

[2] Cite-se como exemplo uma passagem da autoria de Pinheiro Chagas, intelectual português, sobre o romance Iracema, de José de Alencar. Segundo Serafim da Silva Neto, tal comentário “chocou imensamente a sensibilidade dos escritores brasileiros contemporâneos”: “O defeito que eu vejo nessa lenda [Iracema], o defeito que vejo em todos os livros brasileiros, e contra o qual não cessarei de bradar intrepidamente é a falta de correção na linguagem portuguesa, ou antes a mania de tornar o brasileiro uma língua diferente do velho português, por meio de neologismos arrijados e injustificáveis e de insubordinações gramaticais, que (tenham cautela) chegarão a ser risíveis se quiserem tomar as proporções duma verdadeira insurreição em regra contra a tirania de Lobato” (Pequena história da literatura brasileira, p. 280; apud SILVA NETO 1986:213).

[3] Atente-se para a idéia de Alencar de que o destino do português era “servir de raiz a uma das mais belas e opulentas entre as línguas que dominarão a América antes de um século” (O nosso cancioneiro, p. 56; apud CUNHA 1968:42).

[4] ANDRADE, Oswald. Manisfesto da Poesia Pau Brasil, Correio da Manhã, 18 de março de 1924; apud TELES, 1977:267.

[5] Mário de Andrade promete, mas não chega a publicar a Gramatiquinha da fala brasileira.

[6] ANDRADE, Mário. O empalhador de passarinhos. 3 ed. São Paulo, 1972, p. 67; apud BARBADINHO NETO, 1977:03.

[7] Cf. TEYSSIER, 1987:91.

[8] Cunha, 1968:15.

[9] O destaque é meu.

[10] Cf. Froehlich (1975): “há realmente duas variedades bem nítidas de comportamento lingüístico no Brasil” (p. 168) e “à falta de recursos para impor em escala nacional uma língua padrão realmente viva, o Brasil terá que continuar com uma situação de diglossia” (p. 177).

[11] Sobre essa hipótese, ver Tarallo, 1988.