A QUESTÃO DA PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA LINGÜÍSTICA DO BRASIL

Tânia Lobo

UFBA

Preliminares

A questão aqui discutida – a da periodização da história lingüística do Brasil – é um tema um tanto “datado” e, talvez, já mesmo superado no conjunto de temas relevantes que os historiadores da língua portuguesa no Brasil se colocam na atualidade.

Ao observar as diversas formas através das quais a relação entre a história e a lingüística se tem manifestado ao longo do tempo no âmbito dos estudos lingüísticos, Adolfo Elizaincín (1998:143-144) afirma:

Tradicionalmente (para establecer una frontera temporal, digamos antes del advenimiento de la sociolingüística), la historia se unía a la lingüística bajo dos formas académicamente reconocidas (esto es, libros, cursos universitarios, congresos, etc.): la “gramática histórica”y la “historia de la lengua”.

Y en esa terminología estaba implícita la historia, en relación al lenguaje, desde “fuera” o desde “dentro”. Si era desde “dentro” se trataba de “gramática histórica”, es decir, el estudio de la evolución interna de las formas lingüísticas en perspetiva diacrónica, sin prestar atención a las circunstancias sociales de las diferentes épocas por las que viajaba la lengua. Si, por el contrario, el punto de vista privilegiaba una visión desde “fuera”, se trataba de la “historia de la lengua” o “historia externa de la lengua”, disciplina en la que cuidadosamente se iba correlacionando los cambios internos con las vicisitudes sociales de las diferentes épocas.

En este contexto epistemológico emerge, en la década de 60, la socioingüística y entonces todo cambia: la distinción entre “externo”e “interno”con relación al lenguaje ya no parece plausible ni razonable, por cuanto no es posible concebir el lenguage fuera de su entorno social; más aun, el lenguaje existe en virtud del contexto social en el que se encuentra imerso.

 

A preocupação quanto ao estabelecimento de “fases”, ou seja, quanto à periodização da história de uma língua é, por assim dizer, típica de um momento anterior ao de uma concepção de língua que emerge no âmbito dos estudos sociolingüísticos, mais especificamente de um momento em que, utilizando os termos de Elizaincín, “estaba implícita la historia, en relación al lenguaje, desde fuera”.

Ao se retomar esse tema, não se adota esta perspectiva que se poderia chamar de “tradicional”. Num momento em que a volta do interesse pelos estudos diacrônicos no Brasil data de apenas pouco mais de uma década, revisitar velhas questões pode ser uma forma de tentar estabelecer novas tradições. Aqui se apresenta uma nova proposta de periodização da história lingüística do Brasil, que, embora passível e certamente sujeita a reformulações posteriores, se pauta, diferentemente de outras propostas do gênero, em critérios mais de natureza sociolingüística, através dos quais se divisam dois grandes quadros históricos essencialmente distintos nos 500 anos de história da língua portuguesa no Brasil. Considera-se, portanto, “útil” periodizar quando, na base da periodização, estão mudanças estruturais, globais e profundas[1].

1.       Periodização

1.1.    Propostas existentes

As propostas de periodização da história de uma língua podem basear-se em fatores internos – mudanças que a estrutura da língua sofre – ou, mais freqüentemente, em fatores externos – mudanças sócio-históricas supostamente correlacionadas às mudanças estruturais. Em ambos os casos, os critérios priorizados pelos historiadores das línguas são amplamente variáveis.

Apesar de a história externa do português no Brasil ainda hoje carecer, para “completar-se”, de estudos que enfoquem as distintas problemáticas regionais, as suas linhas gerais – em que, segundo a perspectiva defendida por Antônio Houaiss (1985:32), se devem articular “fatos da ocupação territorial, fatos das sucessivas distribuições demográfico-lingüísticas dos ocupantes e fatos das prevalências e desaparecimentos das línguas” – já estão bem mais esboçadas que as linhas gerais da sua história interna. Daí, o fato de as três propostas de periodização para a história do português no Brasil existentes se basearem exclusivamente em fatores externos.

Do conjunto das propostas que se baseiam em fatos da história externa, a primeira elaborada é da autoria de Serafim da Silva Neto (1986 [1950]) e ainda hoje é a mais correntemente referida. Nela, o autor, partindo essencialmente de fatos da história política do Brasil – o início da colonização, a expulsão dos holandeses e a chegada da família real portuguesa –, divide a história da língua em três fases:

 

a)       Primeira fase: de 1532 (início da colonização) a 1654 (expulsão dos holandeses). Povoamento da costa: escassez do elemento branco; em alguns pontos, mais cedo que em outros, inicia-se o processo que resultará no predomínio da população negra sobre a indígena; a língua geral é necessária a todos; bilingüismo generalizado;

b)       Segunda fase: de 1654 (a partir de quando, extinta a ameaça holandesa, se teria marcado em definitivo o caráter português da colonização do Brasil) até 1808 (com a chegada da família real portuguesa). Povoamento do interior: cresce a influência dos brancos e dos negros; rareia o elemento indígena; a língua geral vai paulatinamente deixando de ser utilizada, até limitar-se às povoações do interior e aos aldeamentos dos jesuítas; o período que vai de meados do século XVII a meados do século XVIII representa o clímax da expansão territorial: faz-se o povoamento do interior com as massas do litoral, compostas, em percentagens diversas, de índios, negros, mestiços e brancos “decaídos”, que se expressavam através de um crioulo ou semicrioulo;

c)       Terceira fase: a partir de 1808. Urbanização: as elites rurais emigram para as cidades; dualidade lingüística entre a nata social (constituída por brancos e mestiços que ascenderam socialmente), exposta, cada vez mais, à influência da escolarização, e outro estrato social, constituído pelos descendentes dos índios, negros e mulatos da Colônia.

 

A segunda proposta é Paul Teyssier (1984:75-78) e assim se apresenta:

a)       Primeira fase: o período colonial até a chegada de D. João VI (1808): o português europeu falado pelos colonizadores portugueses vai adquirindo traços específicos; os aloglotas aprendem o português de forma imperfeita; o português coexiste com a língua geral – um tupi que, simplificado e gramaticalizado pelos jesuítas, se torna língua comum; conservam-se muitas línguas indígenas particulares, denominadas línguas travadas;

b)       Segunda fase: da chegada de D. João VI (1808) à Independência: período da “relusitanização” do Rio de Janeiro, com a chegada da família real e de uma população de 15 000 portugueses[2];

c)       Terceira fase: o Brasil independente: a chegada de imigrantes europeus – sobretudo no período que se estende entre 1870 e 1950 –, a extinção do tráfico negreiro e a diluição dos índios na mestiçagem brasileira contribuem para o “branqueamento” do Brasil contemporâneo; o país urbaniza-se e industrializa-se; nas grandes cidades, elabora-se o português brasileiro.

 

A última proposta é de Marlos de Barros Pessoa (1997: 19-23) e visa a dar conta do processo que vai da formação de variedades lingüísticas regionais à elaboração da língua literária, processo esse que é articulado a fatos da história econômica e da história sociocultural do Brasil e que é apresentado em três fases:

 

a)       Primeira fase: de 1534 (divisão do país em capitanias hereditárias) a 1750 (descoberta do ouro nas Minas Gerais e modernização do estado português com as reformas pombalinas). “Estágio de multilingüismo, com variedades de línguas e formação de variedades lingüísticas regionais.”

b)       Segunda fase: de 1750 a 1922. A segunda fase apresenta-se dividida em três subfases:

I.                     Primeira subfase: de 1750 (descoberta do ouro nas Minas Gerais e modernização do estado português com as reformas pombalinas) a 1808 (transferência da família real portuguesa e urbanização da sociedade brasileira). “Período de koineização de diferentes variedades, que seria uma espécie de pré-koineização da língua comum.”

II.                    Segunda subfase: de 1808 (transferência da família real portuguesa) a 1850 (fim do tráfico de escravos). “Subestágio de formação da língua comum, com formação paralela de normas locais.”

III.                  Terceira subfase: de 1850 (fim do tráfico de escravos) a 1922 (fim do predomínio das oligarquias, surto industrial, emergência do movimento modernista brasileiro). “Subperíodo de estabilização da língua comum e das normas locais.”

c)       Terceira fase: a partir de 1922. “Estágio de elaboração da língua literária.”

 

Cada uma das três propostas anteriormente referidas apresenta aspectos considerados problemáticos, em virtude dos quais se julga que nenhuma delas possa ser adotada sem restrições.

Na primeira, destaca-se, inicialmente, a falta de coerência entre a caracterização de cada uma das fases – em linhas gerais, corretamente delineadas – e a tese defendida por Serafim da Silva Neto que o português brasileiro é unitário e conservador. Por outro lado, como já salientou Marlos de Barros Pessoa (1997:25), embora fique claro que, na seleção dos fatos históricos que delimitam cada uma das fases – a expulsão dos holandeses e a chegada da família real –, haja a intenção de enfatizar uma progressiva “lusitanização do Brasil”, o destaque para a ocupação holandesa não se justifica em uma proposta de periodização da história lingüística brasileira, na medida em que a presença holandesa no Brasil, tendo durado apenas vinte e quatro anos, não teve conseqüências no plano da linguagem, ou seja, não provocou qualquer “ruptura do desenvolvimento lingüístico normal que [...] que se dava na perspectiva das línguas indígenas, africanas e do próprio português.”

Das três propostas, a de Paul Teyssier é a menos elaborada, o que talvez se possa atribuir ao caráter conciso da sua História da Língua Portuguesa. Carece de um certo equilíbrio interno, sobretudo quanto a uma justificativa para a segunda fase, extremamente curta para dar conta de mudanças significativas no plano lingüístico em todo o Brasil e mesmo na cidade do Rio de Janeiro, exceto, talvez, se se considerar como representativo do português brasileiro do período em questão apenas o comportamento lingüístico das elites coloniais que habitavam a Corte. Além disso, é notável o quanto é minimizada ou mesmo omitida a participação do contingente negro – juntamente com o contingente português, o mais representativo na constituição da população brasileira –, na formação do português brasileiro.

Finalmente, quanto à última proposta, dois aspectos merecem ser comentados. O primeiro refere-se ao fato, um tanto problemático, de terem sido consideradas em uma mesma proposta de periodização lingüística a história da língua falada e a história da língua literária[3]. O segundo diz respeito às fases propostas para a periodização e a caracterização de cada uma delas individualmente: o multilingüismo é apresentado como um traço marcante apenas para o período que se estende de 1534 a 1750; todavia, os dados da história demográfica brasileira não corroboram essa visão da história lingüística, já que os séculos XVIII e XIX juntos detêm 85% do total de africanos que chegaram ao Brasil: 47% no século XVIII e 38% no século XIX (cf. Mattoso 1990).

Apesar de as investigações sobre as mudanças estruturais sofridas pelo português no Brasil serem recentes, iniciando-se de forma regular somente a partir da década de 80, já se conta, atualmente, com a possibilidade de se formular uma proposta de periodização a partir da datação de mudanças lingüísticas.

Segundo Fernando Tarallo (1993), a partir da articulação entre diversas mudanças sintáticas que teriam afetado o sistema pronominal e a ordem das palavras, seria possível observar-se, na passagem do século XIX ao século XX, a configuração de uma “gramática” brasileira distinta da “gramática” do português europeu. Independentemente de se poder discutir a idéia de que as mudanças sintáticas estudadas por Fernando Tarallo definam uma nova “gramática” distinta da “gramática” do português europeu, o fato em si – a identificação de um conjunto inter-relacionado de mudanças em uma dado momento da história de uma língua – é suficiente para sustentar uma proposta de periodização.

Embora não tenha havido por parte de Tarallo uma preocupação sistemática no sentido de correlacionar as mudanças estruturais analisadas a fatores sócio-históricos, tal correlação é apontada por Mattos e Silva (1995:84), quando afirma:

 

[...] a sócio-história lingüística, ou seja, a “história externa” do português brasileiro fundamenta a proposição de que a sua “gramática” é divergente da “gramática” do português europeu, como mostrou Fernando Tarallo em um dos seus últimos trabalhos – Diagnosticando uma gramática do português brasileiro: o português d’aquém e d’além mar ao final do século XIX.

 

Esta autora (1995:84), porém, levanta uma hipótese relevante e distinta, a de que a datação da emergência dessa “gramática” brasileira talvez possa ser antecipada em aproximadamente um século, devendo situar-se, portanto, não no trânsito do século XIX ao XX, mas, sim, na passagem do século XVIII ao século XIX:

[...] a análise de fontes escritas mais próximas do português brasileiro falado, que possam vir a ser utilizadas, tais como cartas particulares inéditas de brasileiros, caso sejam encontradas, anteriores à primeira metade do século XVIII, poderá fazer recuar a definição dessa “gramática” para antes do momento proposto, já que a sua sócio-história mostra que ele se originou e se desenvolveu em uma contextualização multilíngüe complexa e absolutamente livre das peias da normativização, pelo menos até o início do século XIX e de efeito precário.

 

Na proposta de periodização que a seguir se apresenta, contudo, há coincidência entre os limites do período que se vai definir como sendo a primeira fase da sócio-história do português brasileiro – compreendida entre o século XVI e 1850 – e os limites do período que, segundo Tarallo, se pode considerar como sendo o da sua mais marcante diferenciação estrutural em face do português europeu.

 

1.2.    Elementos para uma nova proposta

 

A proposta de periodização que aqui se defende é um tanto econômica, em muito se beneficia da leitura das propostas anteriores e está fundamentalmente calcada em três aspectos:

 

-          a história demográfico-lingüística brasileira;

-          o crescimento populacional associado ao processo de urbanização do país;

-          o processo de escolarização associado ao processo de estandardização lingüística.

 

Correlacionando-se os três fatores referidos, propõe-se, então, uma distinção entre duas grandes fases, assim caracterizadas:

 

-          Primeira fase: multilingüismo generalizado; não-urbanização; não-escolarização; não-estandardização lingüística;

-          Segunda fase: multilingüismo localizado; urbanização; escolarização; estandardização lingüística.

 

Apesar de se reconhecer a necessidade de se subdividir cada uma das fases apresentadas, considera-se que tal subdivisão será mais corretamente proposta, na medida em que distintas histórias lingüísticas regionais forem sendo conhecidas. Julga-se, assim, que, para se dar conta de um panorama geral, - deixando-se, por ora, as especificidades locais –, três fatos são essenciais na compreensão dos caminhos da história lingüística brasileira:

 

-          a passagem de um contexto de país generalizadamente multilíngüe a um contexto de país generalizadamente unilíngüe e localizadamente multilíngüe;

-          o crescimento populacional associado à transformação do país da condição de eminentemente rural à condição de eminentemente urbano;

-          o crescimento dos índices de escolarização, retirando o país da condição de iletrado e inserindo-o em um contexto de país com baixos índices de letramento.

 

A seguir, discute-se mais pormenorizadamente cada um dos três fatos destacados.

 

1.2.1.         Do multilingüismo generalizado ao unilingüismo generalizado

O Brasil é hoje um país com aproximadamente 150 milhões de habitantes[4] maioritariamente unilíngües, cuja língua materna é o português. Cerca de 170 línguas indígenas ainda sobrevivem, sendo faladas, contudo, por uma exígua população de aproximadamente 250 mil indivíduos, fato que, acrescido à inexistência de uma política lingüística que as preserve, indica a sua atual condição de marginalidade e o seu futuro incerto. Há vestígios de utilização de línguas africanas em situações de práticas rituais religiosas e há ainda o fenômeno das “línguas secretas”, existente, por exemplo, no Cafundó, mas não há sequer um exemplar sobrevivente das muitíssimas línguas africanas outrora faladas pela população negro-escrava. Por outro lado, em virtude do processo de imigração, deflagrado sobretudo a partir de meados do século passado, subsistem, na condição de línguas minoritárias, o alemão, o italiano, o japonês e outras línguas, cujo número de falantes vem sendo, todavia, progressivamente reduzido.

Considerando a história demográfica brasileira, não há dúvidas de que o quadro atual, em que o português figura como língua hegemônica, se vai paulatinamente estabelecendo ao longo dos anos da colonização e se torna irreversível em meados do século XIX, a partir de quando, ao menos oficialmente, se encerra a entrada de contingentes de escravos negro-africanos no Brasil. Toma-se, pois, como marco divisor entre duas fases claramente distintas da história lingüística brasileira o ano de 1850, data oficial da extinção do tráfico negreiro no Brasil.

A primeira fase, portanto, estende-se do século XVI à metade do século XIX e define-se, fundamentalmente, como o tempo de contato-concorrência entre línguas indígenas, línguas africanas e a língua portuguesa, tendo, ao final, prevalecido o uso desta última. A compreensão dessa fase subordina-se a dois aspectos centrais: identificação das variadas formas locais de contato lingüístico que se estabeleceram e caracterização do processo de aprendizagem informal do português como segunda língua por parte de uma massa de falantes que, em diversos momentos históricos, chegou a superar numericamente os falantes nativos do português.

Grosso modo, na história do Brasil, o século XVI costuma desenhar-se como o da fixação litorânea; o século XVII, como o da expansão territorial, iniciando-se já a conquista das terras do interior, e o século XVIII, como o da consolidação em definitivo do projeto colonial português. No decurso desses três séculos e ainda durante o século XIX, praticamente não sofrendo a interferência de qualquer mecanismo social capaz de conter ou retardar mudanças lingüísticas e, como já se referiu, estando também sempre exposta a uma variadíssima gama de contactos lingüísticos, a língua portuguesa espraia-se e implanta-se no território brasileiro.

É, pois, característica desse período o processo de formação do português rural brasileiro, não-uniforme. A variação lingüística, produto desse momento, é de natureza marcadamente diatópica, opondo as várias regiões, distintas entre si, em virtude de variadas configurações histórico-demográficas e culturais. Nesse país eminentemente rural e com taxas (quase) nulas de alfabetização, a fala das elites também terá sofrido o influxo das mudanças que paulatinamente foram dando conformação ao português vernáculo brasileiro. Dizendo de outra forma, a variação diastrática entre falantes nativos do português brasileiro terá sido bastante menos marcada que a atual, pois ainda não existia uma parcela significativa da população brasileira cujo comportamento lingüístico fosse definido pelos modelos difundidos pela escolarização; portanto, as diferenças entre a fala dos indivíduos integrantes da elite e a fala dos indivíduos integrantes dos estratos desprestigiados socioeconomicamente deveriam ser menores que as observadas atualmente.

Para além de se definir a segunda fase como o momento a partir do qual o multilingüismo se extingue ou se torna bastante limitado geograficamente e a língua portuguesa se torna hegemônica no Brasil, é ainda sob dois títulos que se pretende a seguir caracterizar a distinção entre a primeira e a segunda fases da história lingüística brasileira: o processo de urbanização, associado ao crescimento populacional, e a escolarização, associada ao fenômeno da estandardização lingüística.

 

1.2.2.         De país rural a país urbano

Calcula-se que, na passagem do século XVIII ao século XIX (ano de 1798), a população brasileira atingisse os 3,25 milhões de habitantes, os quais correspondiam a 1 milhão de brancos, a 1,6 milhão de negros e a 650 mil índios[5].

Os dados apresentados na tabela a seguir, em seriação cronológica, permitem visualizar não apenas o crescimento da população brasileira, mas também, em paralelo, o processo de urbanização do país, o qual se fez em decorrência de maciça migração rural:

 

TABELA 1

 

Ano

 

População total

 

População urbana

(percentagem)

 

1900..........................................................

1920..........................................................

1940..........................................................

1950..........................................................

1980..........................................................

 

14 333 915

-

-

51 944 397

120 000 000

 

6,8

10,7

31,29

36,16

67

Bortoni 1989.

 

Os números acima são claros no sentido de apontarem que o processo de urbanização do Brasil é um fenômeno bastante recente; torna-se já sensível nas décadas de 40 e 50, mas, de fato, implementa-se em todo o país a partir da década de 80. A importância de se estudar o impacto dos dialetos rurais sobre os dialetos urbanos e vice-versa é, pois, uma das questões da ordem do dia da agenda das pesquisas lingüísticas brasileiras, a fim de que se possa compreender a verdadeira face do português brasileiro contemporâneo. Sobre este assunto, Stella Maris Bortoni (1989: 167) assim se pronuncia:

 

A vida e a cultura neste país foram profundamente alteradas neste século por esse fenômeno de mobilidade geográfica, que se tornou, por isso mesmo, objeto de especial interesse nas ciências humanas em geral. Surpreendentemente a Lingüística tem passado ao largo da questão e pouco se conhece do processo sociolingüístico de transformação dos dialetos rurais brasileiros em variedades urbanas.

 

A tabela abaixo, em que se incluem as décadas de 60 e 70 e em que se discriminam os dados por regiões, permite constatar que a urbanização não ocorreu simultaneamente em todas as partes e que a região Sudeste, estando na vanguarda do processo, ainda hoje é a região mais urbanizada do país:

 

 

 

 

 

 

TABELA 2

(Em percentagem)

 

 

 

 

Norte.................

Nordeste............

Sudeste.............

Sul.....................

Centro-Oeste.....

Brasil.................

 

1940

 

 

1950

 

1960

 

1970

 

1980

 

1991

 

27,75

23,42

39,42

27,73

21,52

31,24

 

31,49

26,40

47,55

29,50

24,38

36,16

 

37,80

34,42

57,36

37,58

35,02

45,08

 

45,13

41,81

72,68

44,27

35,02

55,92

 

51,65

50,46

82,81

62,41

67,79

67,59

 

57,84

60,64

88,01

74,12

79,16

75,47

                Brandão 1996.

 

No que toca à questão que está sendo discutida, o principal aspecto a se destacar na observação do impacto exercido pela urbanização do país na sua história lingüística – fenômeno este, como já se disse, em larga escala decorrente não do crescimento da população, mas do êxodo rural – diz respeito ao que se pode identificar como sendo uma “reorganização” do quadro da variação lingüística brasileira, que passa de marcadamente diatópica a marcadamente diastrática:

 

a)       Na primeira fase, o país é eminentemente rural, e a sua diversidade lingüística caracteriza-se, principalmente, pela oposição dos dialetos rurais entre si;

b)       Na segunda fase, o Brasil torna-se um país eminentemente urbano, e a variação diatópica esbate-se em favor de uma variação de tipo diastrático, que opõe falantes de níveis socioculturais distintos, com as classes baixas urbanas passando a ser integradas progressiva e maioritariamente pela população de origem rural e por seus descendentes[6].

 

1.2.3.         De país analfabeto a país parcialmente alfabetizado

Ainda sobre a distinção entre essas duas fases, a escolarização – associada à estandardização lingüística – é o terceiro fator a ser examinado.

Do século XVI ao início do século XIX, o percentual de letrados no Brasil foi irrisório, variando entre 0,5% e 1% da população (Houaiss 1985: 89). No início do século XX, esses índices apresentaram um crescimento significativo, chegando a 35% os indivíduos que, entre 1900 e 1920, sabiam ler e escrever, conforme a tabela abaixo o demonstra:

 

 

 

 

 

TABELA 3

Proporção de alfabetizados e de analfabetos

na população brasileira de 15 anos e mais

Especificação

1900

1920

Total

9 752 111

17 557 282

Sem declaração..................................

Sabem ler e escrever.........................

Não sabem ler e escrever..................

22 791

3 380 451

6 348 869

-

6 155 567

11 401 715

Percentagem de analfabetos..............

65

65

Fernandes 1966, apud Ribeiro 1995.

               

De acordo com os dados do censo demográfico de 1991, atualmente, cerca de 75% dos brasileiros são alfabetizados. Note-se, porém, que uma visão mais detalhada dos números totais revela uma realidade ainda muito distante da ideal: apenas 38% dos brasileiros concluem a 1a série do 1o grau; menos de 25% concluem o 1o grau; 17% concluem o 2o grau e 10% chegam à universidade (Relatório Técnico de 1990, Ministério da Educação, apud Silva 1995: 83).

Considera-se que, enquanto na primeira fase da história da língua portuguesa no Brasil, não se pode indicar uma real interferência de uma norma padrão (difundida por um sistema formal de educação) sobre o português vernáculo brasileiro (o qual substancialmente se ia constituindo com a participação de falantes aloglotas em contato com falantes nativos brasileiros e europeus não escolarizados), na segunda fase, tal interferência, ainda que baixa, se verifica.

 

REFERÊNCIAS

BORTONI, Stella Maris. (1989). “A migração rural-urbana no Brasil: uma análise sociolingüística”. In TARALLO, Fernando (org.). Fotografias sociolingüísticas. Campinas: Pontes.

BRANDÃO, Sílvia Figueiredo. (1996). “Rede de localidades para a elaboração de um atlas lingüístico nacional: considerações iniciais”. Salvador, UFBA, Seminário Caminhos e Perspectivas para a Geolingüística no Brasil.

ELIZAINCÍN, Adolfo. (1998). “Historia social del español de América: perspetivas”. In CASTILHO, Ataliba Teixeira de (org.). Para a história do português brasileiro: primeiras idéias, São Paulo: Humanitas.

FERNANDES, Florestan. (1966). Educação e sociedade no Brasil. São Paulo: Dominus – Editora da USP; apud RIBEIRO, Maria Luísa Santos. (1995). História da educação brasileira: a organização escolar. 14 ed. Campinas: Editora Autores Associados.

HOUAISS, Antônio. (1985). O português no Brasil. Rio de Janeiro: UNIBRADE.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (1995). A sócio-história do Brasil e a heterogeneidade do português brasileiro: algumas reflexões, Boletim da ABRALIN, 17.

________, (1993). Português brasileiro: raízes e trajetórias (para a construção de uma história), Discursos-Estudos de Língua e Cultura Portuguesa, Coimbra, Universidade Aberta, 3.

MATTOSO, Kátia M. de Queirós. (1990). Ser escravo no Brasil. 3 ed. São Paulo: Brasiliense.

NOVAIS, Fernando A.. (1995). Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777 – 1808). 6 ed. São Paulo: Hucitec.

PESSOA, Marlos de Barros. (1997). Formação de uma variedade urbana e semioralidade na primeira metade do século XIX. O caso do Recife, Brasil, Neuphilologischen Fakultät der Universität Tübingen, tese de doutorado.

SILVA NETO, Serafim da. (1986 [1950]). Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. 5 ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro.

TARALLO, Fernando. (1993). Diagnosticando uma gramática do português brasileiro: o português d’aquém e d’além mar ao final do século XIX. In KATO, Mary; ROBERTS, Ian. (orgs.). Português brasileiro: uma viagem diacrônica. Campinas: Editora da UNICAMP.

TEYSSIER, Paul. (1984). História da Língua Portuguesa. 2 ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.

WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José C. de. (1994). Formação do Brasil colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

 



[1] Observa o historiador Fernando Novais (1995:11): “Transição, já se disse com alguma propriedade, é tudo em história, a ponto de a própria história poder definir-se como o estudo da transição (J. Ortega y Gasset). Se, de facto, se quer indicar a inexistência de limites radicais, o inexorável entrelaçar-se dos acontecimentos no curso da história, a permanente coexistência de formas transatas com antecipações ainda não concretamente definidas, a afirmação ganha sentido e exprime um dos traços essenciais da realidade histórica. E no entanto, para certas épocas mais do que para outras, a própria sensibilidade e a tradição do pensamento historiográfico vêm revelando não ser desapropriado falar em transição e crise. É que, não obstante aquela inextricável interpenetração acima referida, o desenrolar da história é periodizado por estruturas globais e profundas, geradas na inevitável relacionação dos homens entre si na prática de sua vida histórica, e que passam a configurar o quadro de possibilidades em que se desenvolve a própria história (...).”

[2] As estimativas quanto ao número de portugueses que chegaram com a família real ao Brasil variam entre 15 000 e 18 000.

[3] Apesar de, na discussão do fenômeno de estandardização lingüística, característico dos processos de urbanização, ser fundamental a consideração da elaboração da língua literária, não se justifica, no caso em questão, considerar a Semana de Arte Moderna como “um marco fundamental do desenvolvimento lingüístico do português brasileiro.” (Pessoa 1997:25).

[4] A população brasileira estimada para 1993 foi de 151 523 449 habitantes.

 

[5] Esses dados foram extraídos de Wehling e Wehling (1994:336), que, todavia, os consideram “falhos, pela falta de estatísticas e discrepância das informações contemporâneas.”

[6] Note-se que Paul Teyssier (1984:79) afirma que “as divisões ‘dialetais’ no Brasil são menos geográficas que sócio-culturais”, ou seja, que “as diferenças na maneira de falar são maiores, num determinado lugar, entre um homem culto e o vizinho analfabeto que entre dois brasileiros no mesmo nível cultural originários de duas regiões distintas uma da outra”; do que conclui que “a dialectologia brasileira será [...] menos horizontal que vertical.”