GERMANISMOS E ARABISMOS NO PERÍODO FORMATIVO DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Rosa Virgínia MATTOS e SILVA

Universidade Federal da Bahia / CNPq / Grupo PROHPOR

 

 

(...) a unidade [do Império Romano] não se fundou apenas sobre as colônias dispersas, sobre uma estrada de calçadas todas elas conducentes ao centro ... Fundou-se sobre uma língua ... a língua do velho país latino.

 

Georges Duby (1989:12)

 

1 Preliminares

 

Neste V Encontro Internacional de Estudos Medievais da Associação Brasileira de Estudos Medievais, o grupo de pesquisa Programa para a História da Língua Portuguesa  apresenta, na mesa-temática Aspectos do léxico da língua portuguesa do período formativo à primeira metade do século XVI, três comunicações que abragem do período formativo do português à primeira metade do século XVI.

Há que esclarecer, de saída, dois pontos: por que até inícios do século XVI? O que se está a entender por “período formativo”?

O primeiro decorre do fato de, em geral, considerar-se que o período medieval – prefere o nosso grupo de pesquisa o adjetivo arcaico – encerra-se ao finalizar o século XV. Estudos lingüísticos recentes buscaram demonstrar que algumas características sintático-semânticas arcaicas perduram até meados do século XVI (Mattos e Silva & Machado Filho (orgs.), 2002: 102 –142, especialmente). Decorre disso termos delimitado esta mesa temática até à primeira metade de quinhentos.

Quanto a “período formativo”, considero aqui que é aquele que se segue à completa romanização da Hispânia, ou seja, quando, no século III d.C., se definiu a última das províncias hispânicas que, como é sabido, foi a Gallaecia et Asturica. Se a língua do “velho país latino”, para retomar a epígrafe, já seria diversificada, desde o que se supõe suas origens, pelo século X a.C., devido a contatos pretéritos com outros povos e suas culturas, essa diversificação crescerá, na medida em que Roma se expande tanto para o Oriente, como para o Ocidente e pelo norte da África. Pode-se então considerar que esse “período formativo” é a primeira fase da formação das línguas românicas. Essas só se definiriam quando, da parte dos falantes, houvesse a consciência da diferença entre o latim e o que usualmente se falava, isto é, o vernáculo de cada comunidade. Para Roger Wright, romanista inglês, no que se refere à distinção entre o latim e os romances, só pode ser proposta

 

em um contexto histórico em que seja possível postular de maneira verossímel uma decisão consciente de mudar a natureza da instrução lingüística. O candidato imediato para tal período crucial é o da reforma, cerca de 800 d.C., sob o reinado do imperador Carlos Magno (1982:11; tradução minha).

 

No que concerne à Espanha, seguindo Roger Wright:

 

A liturgia romana chegou à Espanha (exceto à Catalunha) apenas em 1080, uns três séculos depois de sua promulgação na França e seu uso só chegou a estender-se a todas as partes no século XIII (ib.:13; tradução minha).

 

 

Para concluir, o período formativo precede a consciência da diferença entre o latim e as línguas românicas em formação, ou seja, os romances, no caso especialmente, mas não exclusivamente, o português.

O objetivo desta comunicação é tratar de germanismos e arabismos no referido período ou fase, no processo de formação das línguas românico-hispânicas, em um enquadramento sócio-histórico e cronológico.

 

2 Germanismos

 

Antes de Roma ser conquistada por Alarico, povos germânicos, pelos Pirineus, chegam à Península Ibérica: são eles os vândalos, os suevos e alanos. Esses primeiros invasores germânicos na Hispânia tiveram destinos distintos. Segundo Rafael Lapesa (1986 [1942]:116), os alanos foram exterminados em poucos anos, os vândalos permaneceram um breve tempo a Bética e, em 429, passaram à África. Segundo Lapesa “a filiação Wandalus > ár. Andalus está fora de dúvida”. (ib.:116-117; tradução minha). Dos suevos nada diz Lapesa.

Os suevos constituíram um reino que durou cerca de cento e cinqüenta anos, cuja capital foi a Bracara Augusta dos romanos, hoje Braga, ao Norte de Portugal. Como eram ágrafos, aliás o primeiro texto em língua gótica é a tradução da Bíblia por Wulfilla no século IV d.C., quase nada, ou nada, se pode saber em que influíram no português. Segundo Ivo Castro (1991:149), a grande contribuição lingüística dos suevos para a área galego-portuguesa foi tê-la deixado isolada, durante aquele tempo, permitindo que se mantivessem traços lingüísticos conservadores em relação aos romances hispânicos, principalmente naquele noroeste peninsular. Coloma Lleal, hispanista catalã, considera “germanismos introduzidos pelos suevos no noroeste peninsular: *ASKA ‘ascua’, *PAWTA ‘pata’ (1990:101). Lendo J. M. Piel, infere-se que CARPA ‘carpa’ e COFEA ‘coifa’ são germanismos não-visigóticos (1989:12). Seriam suevos?

Os visigodos, segundo Lapesa, eram os mais civilizados entre os germânicos que chegaram à Península. Já teriam século e meio de contato com os romanos e calcula-se que chegaram à Península cerca de duzentos mil (Castro et al., 1991:117). Instalaram-se na  meseta castelhana e Toledo veio a ser a capital do reino visigótico.

 

Mapa 1: Fonte Lleal (1990).

 

Ainda seguindo Lapesa, a influência lingüística dos visigodos nos romances não foi muito grande, uma vez que logo se romanizaram e abandonaram sua língua, que, no século VII, se achava em plena decomposição. Não teria havido um período bilingüe tão longo como na França.

Que dizer quanto aos empréstimos lexicais? Segundo Piel (id. ib.) os visigotismos mais seguros do português são ALEIVE, BANDO, ESPETO, ESPORA, ESPIA, ESCANÇÃO, LUVA, ROCA, ARREAR – “vocábulos referentes a atividades militares, conceitos jurídicos e objetos caseiros, assim como dois nomes de aves (manifestamente de agouro): MEJENGRA ‘chapin’ e LAVERCA ‘cotovia’”.

Coloma Lleal,  abordando os empréstimos germânicos numa perspectiva sociolingüística, considera que já antes das invasões germânicas, numerosos germanismos se introduziram no latim, pelos intercâmbios que se estabeleceram nas fronteiras, nas guarnições da retaguarda em que os soldados, sobretudo os chefes, eram romanos, enquanto as mulheres eram da região dominada pelos romanos. Com base nisso, conclui a autora que os primeiros germanismos pertencem a duas áreas lexicais, aparentemente, contraditórias: a dos assuntos domésticos e a das questões militares. Entre os numerosos exemplos apresentados selecionei alguns, não referidos por J.M. Piel, antes citado: SABÃO, VENDA, SOPA, BRASA, são exemplos da área dos “assuntos domésticos”. Da outra área: BOTIM, BRIDA, ESTRIBO, ELMO, GUERRA etc (ib.:100-101).

Interessantes no trabalho dessa autora são calques semânticos, decorrentes de interferência, devido à situação de bilingüismo: o germânico *GA-HLAIBA foi literalmente traduzido para o latim cum panio “amigo verdadeiro” e substitui a palavra latina sodales (pag. 101).

Outros germanismos foram introduzidos a partir da Gália, no século V, e se generalizaram pelas áreas conquistadas. São os germanismos de “segunda mão”, conforme Piel (id. ib.). Os exemplos de Piel não coincidem com os de Lleal. O primeiro arrola: BASTIR, ELMO, ESTOLA, GUERRA, GUARDAR, GUARNECER, JARDIM, RICO, SALA, TRÉGUA, VENDA etc e a segunda: FATO (‘roupa’), ESTACA, MOFO, GARBO.

Outros germanismos froam introduzidos no período hispanogodo (séculos VI a VIII) no latim hispânico. São exemplos de Coloma Lleal: AGASALHO, ARENGAR, ATAVIAR, TRISCAR, AIO etc. (note-se que a autora apresenta sempre o provável étimo germânico (cf. pag. 102).

Tanto Lapesa (ib.:119) como Lleal (ib.:101) ressaltam o único sufixo derivacional herdado dos germânicos: -ING > ENGO, como em AVOENGO, REALENGO, ABADENGO.

Parece consensual ser na onomástica (antroponímia e toponímia) que permaneceu mais forte a marca lingüística visigótica nas línguas românicas da Península. Lapesa focaliza esse tópico, no que se refere ao espanhol, às páginas 121-122 de sua Historia de la lengua espan)ola e J.M. Piel tem dois clássicos estudos sobre a antroponímia e outro sobre a toponímia germânica na Península Ibérica, ambos de 1960.

Buscarei sintetizar o estudo Antroponímia germánica na Península Ibérica (1989[1960]:129-147). Afirma o autor que uma parte considerável do onomástico pessoal (e secundariamente geográfico) antigo e moderno é de substância germânica. A partir do século XII, entram nessa área do léxico nomes latino-cristãos referentes a santos, relegando os germanismos. A razão que apresenta para a substância germânica na onomástica será a solidariedade hispanogoda-cristã, por causa da presença islâmica.

Quanto à forma lexical dos antropônimos, destaca que como no grego e nas línguas indo-européias, em geral, são formados de dois elementos do léxico comum e exemplifica com TEODO + RICO ‘povo’ + ‘poderoso’. Esse tipo de formação designa de bitemática; há contudo, os monotemáticos, que apresentam o segundo componente eliminado, como em TEODO + ILA (sufixo) > TEODA. Além desses hipocorísticos regulares, há aqueles resultantes de reduções mais ou menos violentas de um nome bitemático. Exemplifica com MENENDO, patronímico MENENDEZ, port. MENDO, proclítico MEM, aptronímico MENDES.

Classifica o autor essa onomástica a partir do que se pode chamar de “campos conceituais”, tais como:

 

a)      mitos e cultos antigos: como GODE + REDUS, radical em GUTH ‘deus’.

b)      povos e tribos: como DAN + ILA, de *DAN’S ‘danês’.

c)      animais (cavalo, bisonte, urso, lobo, aves simbólicas): como EVE + NANDO, de *AIHOS ‘cavalo’.

d)      nomes de armas: como BRANDE + RICO, de * BRAND’S ‘espada’.

e)      nomes de guerra: como GUNDI + SALVO, de *GUNTHI ‘combate’.

f)        vitória, paz, coragem, fama: como SEGE + FREDO, de *SIGIS ‘vitória’ e *FRITHUS ‘paz’.

 

Relaciona ainda adjetivos de qualidades físicas e morais, como: *AIRMAN’S ‘grande, forte’ em ERMENE-GILDO / ERMIGILDO e BAÍHT’S ‘brilhante, claro’, como em BERTO / BRETO. Também substantivos abstrados, como em  FRADI-NANDO, de FRATHI ‘inteligência’. Ressalta a importante idéia de “senhorio”, “ senhor”, como em TEODE-RICUS, de REIKS, ‘que tem autoridade’. Concluindo com termos referente ao Direito, como WADI ‘penhor’, em GUADI-LA.

Afirma, por fim, que seu exame foi sumário e que ficam por estudar “bastantes outros que não tinham cabimento nas séries semânticas” (ib.:144) que estabeleceu e que, em síntese, apresentei acima. Por isso inclui, finalizando o estudo, “um catálogo resumido desses elementos” (ib.:144-145).

Quanto ao estudo Toponímia germánica na Península Ibérica (1989[1960]: 149-171), apresenta-se esta relacionada com freqüência aos antropônimos. Ressalta muitos topônimos formados do item lexical GODO, como GODOS, GOTINA, GODÃO etc. Chama a atenção para o fato de ocorrerrem no noroeste peninsular quatro termos designados por SUEVO, SUEBO, SUEGOS e SUEVE.

Sobre a sobrevivência de nomes comuns suevos e godos, afirma que são raros, mas destaca, como mais típico SAA’S, SÁ(S) do gót. SALA, talvez referente a PAÇO ou QUINTA.

Considera que a fonte essencial da toponímia germânica está relacionada aos nomes de “possessores”, que se destacam sobretudo na toponímia galego-asturiana. Quanto à forma, esses topônimos refletem o nome da pessoa na forma do genitivo –I, ou em –ANIS / -ONIS, como em BERMUDI, de BERMUDUS; do segundo caso, FAFILA, FAFILANIS, mod. FAFIÃES. Apesar de o autor não apresentar, incluo, por sua natureza simbólica para Portugal e mencionada por vários autores como Lapesa (1986:121-122): de WIMARA, WIMARANIS, mod. GUIMARÃES.

Por fim apresenta J. M. Piel um catálogo, que considera provisório, como nomes de possessores hispano-visigodos, limitando-se às formas modernas, seguidas de seu componente final. Como em:

 

a)                      –RICUS < REIKS (‘poderoso’, ‘rico’), como em ARDORIGO e suas variantes;  BALDORIS  e suas variantes e assim prossegue em ordem alfabética até a letra Z.

b)                     –ulfus < wulfs ‘lobo’, como em ADAULFA e suas variantes e, como –RICUS, prossegue até à letra V, VITSULFA.

c)                      –SINDUS < SINTHS (‘caminho’, ‘expedição militar’), como em ALDOSENDE e variantes e prossegue até a letra T, TOSENDE e variantes.

d)                     –MUNDUS < de *’munda’, ‘proteção’), como em ADEMONTE e suas variantes e prossegue até a letra T, TEAMONDE e variantes.

 

Os outros elementos formadores de topônimos que apresenta são: -ARIUS, do got. HARIJS ‘exército’; -REDUS < gót. *RETHS ‘conselho’. GILDUS < got. GILD ‘imposto’, ‘contribuição’; -MAR < gót. MARKS ‘cavalo’; HANDUS < *HANTHS ‘audaz’;  -FREDIIS < gót. FRITHUS ‘paz’; -GUND < gót. *GUNTHI ‘luta’; -ALDUS < do tema gót. WALDON ‘governar’; - MUNDUS < gót. MÓTHS ‘coragem’. É claro que desses formadores referidos apresenta abundantes exemplos, com suas variantes e em ordem alfabética.

Conclui afirmando, sempre cauteloso, que as listas apresentadas não são completas, tendo eliminado formas duvidosas ou erradamente interpretadas como germanismos.

 

3 Arabismos

 

  Devido não só à longa permanência islâmica na Península Ibérica, mas, certamente, também ao refinamento cultural dos mulçumanos em relação aos hispano-godo-cristãos, marcos culturais indeléveis permaneceram, na Península, decorrente desse período de contato sociocultural, aí incluído o lingüístico.

Já nas Glosas Emilianenses e nas Silenses, aparecem, respectivamente, HATTA como tradução do lat. DONEC (‘até quando’) e ATA QUE MUERAN, correspondendo ao lat. USQUE IN FINEM (Lleal, ib.:189).

Os arabismos foram, na sua maioria, introduzidos nos romances hispânicos por via oral, provavelmente através dos moçárabes, por isso refletem traços do árabe hispânico, marcadamente berberizado. O árabe clássico apenas se transmitiu pela tradição livresca, sobretudo a partir do scriptorium de Afonso X, o sábio, na segunda metade do século XIII.

Os arabismos predominam no léxico. Seu elevado número mostra a propriedade de outra metáfora de J. M. Piel – “o aluvião árabe” (1989[a976]:12-13). A presença de arabismos numerosos nas línguas românicas hispânicas fez com que se distingam de suas outras irmãs românicas.

Concentram-se esses empréstimos em algumas áreas lexicais:

·        vocabulário militar, que reflete nomes técnicos de guerra: ALARDE, ALFERES, ATALAIA, BARBACAN, AÇOUTE, ALJAVA, ALFANGE, ALAZÃO etc.

·        vocabulário relacionado a técnicas e produtos agrícolas: AZENHA, ALCACHOFRA, ESPINAFRE, ALGARROBA, BERINJELA, AÇAFRÃO AÇÚCAR etc.

·        vocabulário relacionado a atividades profissionais: ALFAJEME, ALFAIATE, ALVEITAR, ALCAIDE, ALMOXARIFE etc.

·        vocabulário relacionado ao comércio e à administração: TARIFA, ALFÂNDEGA, ALVARÁ, ALUGUEL, ALMOEDA, ARMAZÉM etc.

·        vocabulário relacionado à vida doméstica: ALCOVA, JARRA, ALJÓFAR, ALBORNOZ, ALMADRAQUE, ALFINETE, ALFENIM, ALMÍSCAR, ALMÔNDEGA, XAROPE, ALAÚDE etc.

·        vocabulário relacionado a manifestações expressivas: SARAGATA, ALVOROÇO, ALVÍSSARAS etc.

·        vocabulário relacionado ao mundo científico: ALGARISMO, ALGORITMO, CIFRA, ÁLGEBRA, ALQUIMIA, ALAMBIQUE, ÁLCOOL, ALCATRÃO, ENXOFRE, ZÊNITE etc.

 

Alguns adjetivos como: GARRIDO, MESQUINHO, ASSASSINO, BALDIO, AZUL, ANIL, CARMESIM etc.; a interjeição OXALÁ, forma fossilizada da expressão “queira Deus” e indefinidos lexicalizados como FULANO, “literalmente fulan ibn man kan (‘um tal filho de quem’), generalizada através de notários mulçumanos e moçárabes” (Llleal, ib.:191).

Embora presentes nas línguas românicas hispânicas, os arabismos não apresentam uma distribuição regular, nem no espaço peninsular, nem na sociedade, o que seria de esperar, já que o léxico reflete a sócio-história do lugar em que a língua é usada.

Para além dos arabismos lexicais, incorporados pelas línguas hispânicas, na sua formação românica, há os chamados calques semânticos, em que a um significante românico-hispânico se associa um significado cuja estrutura revela a herança árabe. São exemplos desse tipo de empréstimo lingüístico:

 

·        ao valor de FILHO se associa o significado do árabe IBN (‘descendente de primiero grau’), a partir daí FIDALGO ‘filho de bens’;

·        ampliou-se o sentido de INFANTE (lat.  ‘(criança que) não fala’) para ‘filho de reis’;

·        o sentido de CORRER se cruzou com o do árabe GAWARA, que significa ‘correr para devastar’, claramente um termo bélico.

 

Coloma Lleal (pag. 192-193) chama a atenção para um caso particular de interferência que são usos fraseológicos do árabe que passaram a expressar-se em romance, como: SE DEUS QUISER, QUE DEUS GUARDE, QUE DEUS TE AMPARE e DEUS O TENHA NA SUA GLÓRIA. Indica ainda que numa observação atenta à paremiologia das zonas do sul da Península mostra as impregnações de conteúdos árabes na estrutura semântica das línguas românicas peninsulares.

Como seria de esperar, a Onomástica, sobretudo a toponímia da Península, está profundamente marcada pela presença árabe. Alguns topônimos provêm de nomes comuns, como: ALDEIA, ATALAIA, ALBUFEIRA, ALCOR, ALCÂNTARA, ALMADÉM; outros são de caráter descritivo, como ALHAMBRA ‘a vermelha’, ALCALÁ ‘o castelo’, GUALDAQUIVIR ‘rio grande’, ALGARVE ‘o poente’ etc.

Quanto aos antropônimos, já vimos que a Reconquista cristã privilegiou a antroponímia de origem germânica. É de notar, contudo, que são formadores de topônimos os termos árabes ABU  ‘pai’ e BEM / BENI ‘filho, filhos’, como em: ABOADELLA, BOLULLA, BENADALIL, BENIMAMET etc; também formadores de antropônimos, como: BENIGOMES, BENAVIDES / BENEVIDES, BENASAR BOADELLA, ABOLAZÁN etc. É de notar também que a maior densidade de topônimos de origem árabe está interligada à duração da permanência muçulmana em cada área e às características da Reconquista. Assim, do lado ocidental da Península, predominam topônimos de origem árabe no Algarve e no Baixo Alentejo, entre o extremo da margem norte do rio Tejo e o litoral atlântico (id.: 194 e nota 5, pág. 195).

 

Mapa 2: Fonte Lleal (1990).

 

Ultrapassando o léxico há alguns fatos morfossintáticos que podem estar relacionados ao árabe: o conhecido caso da preposição HATTA, étimo do castelhano HASTA, mas não consensual quanto ao português ATÉ (arc. ATA, ATAA, ATE)E), ATE)E)S).

Fato interessante, embora não de caráter lexical, ressaltado por Coloma Lleal (pag.195), se relaciona à maior liberdade na ordem dos constituintes da sentença nas línguas românicas da Península Ibérica, que poderia ser interferência da maior liberdade posicional na sintaxe árabe e ainda a elevada freqüência das construções pronominais no castelhano e no português europeu (como em SE ME LO DIJE (cast.) e DISSE-MO A MIM (port.), exemplos meus).

Para encerrar esse, necessariamente sumário, sobre arabismos, repito Rafael Lapesa:

 

A sorte dos arabismos variou segundo as épocas. Até o século XI, quando a Península esteve orientada para Córdoba, introduziram-se sem obstáculo. Durante a Baixa Idade Média, continua pujante a influência árabe, embora já em luta com o latinismo culto e o estrangeirismo europeu. Depois se inicia o retrocesso (1986 [1942]: 155-156).

 

4 Observações finais

 

Confrontando-se germanismos e arabismos, vê-se que:

 

·        no que se refere à Onomástica, predominam os germanismos na Antroponímia, enquanto os arabismos, na Toponímia;

·        quanto a léxico de nomes comuns, os germanismos são mais restritos, limitando-se, segundo Coloma Lleal, a dois campos lexicais,  os arabismos em vários campos lexicais, com inumeráveis itens vocabulares.

·        No aspecto sócio-histórico, enquanto os povos germânicos, pode-se dizer, auto-romanizaram-se, os muçulmanos, reconhecidamente de cultura e civilização mais avançadas que as dos romano-godos-cristãos, marcaram profundamente a cultura e a civilização hispânica, basta lembrar os empréstimos lingüísticos referentes às ciências daquela época.

 

Para finalizar, lembro que, no Brasil, a emigração, genericamente designada de árabe, que engloba turcos, sírios e libaneses, nos inícios do século XX, reintroduz no léxico da língua portuguesa sobretudo antropônimos, como por exemplo: MAMEDE, UADIL, BENEVIDES, IRZA, RAFIZA, NAZIRA, JAMILDA, FÁTIMA etc, mas também designações para alimentos, hoje comuns, como QUIBE, ESFIRRA, TABULE etc.

Apesar da multissecular história de empréstimos lingüísticos – pré-romanos, germânicos, no período formativo do português, árabes, românicos antigos e modernos e, hoje, predominantemente, anglo-germânicos – a língua do “velho país latino” (veja-se a epígrafe) conformou-os segundo a sua morfo-fonêmica e continua viva e enriquecida.

 

Referências

 

DUBY, Georges (dir.) (1989[1986]) A civilização latina: dos tempo antigos ao mundo moderno. Lisboa: Dom Quixote.

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia; MACHADO FILHO, Américo Venâncio (orgs.) (2002). O português quinhentista: estudos lingüísticos. Salvador: EDUFBA/UEFS.

WRIGHT, Roger (1982). Latín tardío y romance temprano: en Espan)a y la Francia carolíngia. Madrid: Gredos (Versión espan)ola de Rosa Lalor, do inglês Late Latin and early romance in Spain and caroligian France. Liverpool: Arca, 1982).

LLEAL, Colomma (1990). La formación de las lenguas romances peninsulares. Barcelona: Barcanova.

CASTRO, Ivo et. al. (1991). Curso de história da língua portuguesa. v. 1. Lisboa: Universidade Aberta.

LAPESA, Rafael (1986[1942]). História de la lengua espan)ola. Madrid: Gredos.

PIEL, Joseph Maria (1989) Estudos de lingüística histórica galego-portuguesa. Lisboa: Imprensa nacional – Casa da Moeda.